Os Filhos Prodigos

 

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Pintura de Pompeo Batoni

A parábola de Jesus mais famosa. Se existe alguma que concorre com essa, no máximo é a parábola do bom samaritano. E essa é a parábola do filho pródigo que é uma história universal, primeiro porque é uma história de amor, perdão e reconciliação. Segundo porque essa história tem um “plot” – mudança surpreendente logo no final. Todo mundo gosta desses elementos em um filme ou coisa do tipo. E Jesus era um mestre de histórias assim, com lição moral.  Mas antes de falarmos sobre a parábola do filho pródigo, precisamos de alguns antecedentes. A parábola é muito rica, muito cheia de detalhes e tem vários elementos, vários atores, tramas e sub tramas.

Mas antes, precisamos entender como a audiência geral, o povo para quem Jesus estava falando, interpretou toda a trama. Só é possível entender completa e adequadamente  nos dias de hoje quando entendemos o que isso significou para a audiência na época. Vamos começar com um autor, que tem uma ligação direta com essa história.

 

O autor

 

Lucas é o único que chama a atenção para essa parábola. Ele era o único autor não judeu na bíblia, não era um dos doze discípulos de Jesus, mas era um grande ministro do evangelho que escreveu dois livros preciosos. Como ele não pertencia ao judaísmo estava muito familiarizado com as crises teológicas que a igreja enfrentou no primeiro século, que envolvia conflitos éticos. Lucas viveu nesse período e certamente sofreu preconceito e discriminação por não ser judeu. Então, quando ele escreve o evangelho, ele se dirige a um povo não judeu. Ele é o que menos traz menções do antigo testamento no seu livro – o que faz sentido já que o público dele não conhecia o Torá. Ele faz traduções, por exemplo, quando Mateus escreve “rabbi”, Lucas escreve “mestre”.  Ele se preocupava em fazer o evangelho acessível. Por isso ele trata Jesus como salvador da humanidade, e não só dos judeus. É nesse contexto que vem a reflexão sobre a parábola do filho pródigo.

 

Contexto e audiência de Jesus

 

Já vimos a audiência de Lucas, e agora a de Jesus, qual era seu público? Lendo Lucas 15:1-3, obtemos a resposta: Fariseus e escribas. A parábola do filho pródigo é uma resposta a uma acusação que Jesus recebeu dos escribas e fariseus, de que ele comia com pecadores e publicanos. O fato de ele fazer isso e recebê-los na época o que esta em jogo é a associação. Mas Jesus percebia que elas precisavam de cuidado, afeto e de instrução que nenhum outro local da cidade dava. Os lideres religiosos rejeitavam essas pessoas por serem pecadores, impuros.  Jesus percebeu que tinha que fazer alguma coisa, e fez. Ele queria mostrar que o juízo, o julgamento e o preconceito que essa classe dos desfavorecidos fazia era injusto. E que na verdade os líderes religiosos estavam tão desfavorecidos aos olhos de Deus quanto esses pecadores. Então Jesus propõe como resposta a crítica uma espécie de trilogia de história, ele conta três parábolas.

 

Ovelha perdida (Lucas 15:3 em diante)

 

Imaginem um pastor que tem 100 ovelhas. No contexto da palestina antiga do primeiro século, uma centena de ovelhas significava que esse indivíduo era bem de vida. Uma ovelha não necessariamente causaria prejuízo para ele. Mas o pastor se afeiçoa ao animal e sabendo que não é dos mais inteligentes, ele deixa as ovelhas seguras que estão no aprisco e vai em busca da ovelha perdida e a coloca nos ombros e retorna pra casa. Ai quando ele volta chama os amigos e vizinhos e faz uma festa, querendo partilhar a alegria.

 

Dracma perdida (Lucas 15:8 em diante)

 

A dracma grega era equivalente ao denário romano, que equivaliam ao salário de um trabalhador rural de um dia. Essa mulher tinha então quase duas semanas de trabalho ali. As casas da palestina deste século tinham normalmente um cômodo só, ou dois com apenas uma entrada de luz natural. O chão era de terra batida então perder uma moeda numa casa dessas era pedir pra não achar mais, tanto é que ela acende uma candeia e varre a casa. E quando encontra o resultado é igual: chama as vizinhas, as amigas e quer comemorar.

 

O filho pródigo

 

Nós já começamos a entender a mensagem de Jesus aqui. Uma crítica frontal ao julgamento que o fizeram por estar com “ímpios”. A parábola que entramos agora conta sobre dois filhos.  O mais novo exige do pai que a herança que só poderia ser dada depois da morte do pai, fosse dada naquele momento. O pai surpreendentemente atende ao pedido do filho, da a herança ainda em vida e este pega a herança e vai embora de casa. A partir dali vive uma vida desregrada, dissoluta, gasta todo o dinheiro e acaba passando fome, sem recurso, sem teto, chega ao ponto de ir para uma fazenda viver junto com os porcos. Então reflete sobre as escolhas que fez, o caminho errado que tomou e pensa “poxa vida, até na casa do meu pai, aquela que eu rejeitei, os servos vivem melhor do que eu que sou filho. Como cometi um erro muito grande vou voltar ao meu pai, dizer que pequei contra deus e contra ele” – e de fato, ele estava arrependido, e a prova disso é a proposta que ele pensou em fazer: ser servo do pai, já que não era digno de ser mais seu filho. Ele retorna e surpreendentemente o pai o recebe com anel, com roupas novas e faz uma festa matando um novilho.

 

No contexto da época, uma família mediana com uma ou duas galinhas ou frangos conseguia se sustentar. Um animal de menor porte como uma ovelha, implicitamente indicaria que não só a família, mas funcionários e servos também. Aqui era um novilho, imagine. Falando de gado, ele chamaria toda a vila pra participar da festa. E a história não caba por aí. O irmão mais velho se ressente, não quer participar da festa. O  pai sai da festa, vai até o filho e pergunta o que aconteceu. Ele diz que obedeceu ao pai sempre e nunca recebeu “nada” para comemorar com os amigos. “Esse teu filho” , ele disse e não meu irmão, “fez tudo errado e ainda recebe um novilho. E eu?” O pai generoso diz que tudo o que lhe pertence é do seu filho também. Ele só estava querendo comemorar o filho que estava perdido.

 

Se formos analisar a seqüência das parábolas, percebemos que existem dois atores principais: o “resgatador” e o perdido.  No entanto, a ultima parábola tem um terceiro ator: O filho mais velho.  O que o público entendeu?

 

O filho rebelde

 

Quando o pai decidiu repartir a herança (Lucas 15:12) ele LHES repartiu. Na lei de herança da cultura antiga, o filho primogênito quando havia partilha de bens, por ser o mais velho, ele era escolhido para ser o líder, o sucessor. Logo, o irmão mais velho ganhou o dobro. Mas também eles entenderam outra coisa: essa partilha é fruto de um problema de relacionamento. Pedir a herança antes do pai morrer era o maior desprezo que o filho poderia dar ao pai, uma ofensa. O publico pensava na transgressão do quinto mandamento da lei. Mas a ausência de imediação do filho mais velho também foi uma surpresa. Num problema de relacionamento, o mais velho deveria ser o mediador, pois seria o herdeiro, mas ele ficou quieto, porque iria receber o dobro. A ganância e ambição também estavam no filho mais velho e não só no mais novo como vemos. O público pensava que o filho mais velho não atuou como deveria na lei judaica. Mais uma surpresa na história para o público. Quando o mais novo chega, o mais velho repreende a ação do pai. Segundo a lei, o pai poderia apedrejar o filho, mas ele não o repreendeu de nenhuma forma, muito pelo contrário. O pai é uma metáfora belíssima de Deus: aquele que perdoa não importa o que você faça, e aquele que sempre está atrás de você, sempre te procura, sempre te da mais uma chance. A história tem um fim inconclusivo. O irmão reclama da injustiça do pai e o pai se justifica e assim acaba a parábola. Neste momento a audiência se pergunta “o irmão mais velho se reconciliou ou não com o pai? Ele entrou na festa e abraçou sem irmão mais novo?” essa pergunta fica em aberto. Não sabemos qual caminho ele escolheu. Jesus deixou em aberto, pois neste momento ele olhava para os que o criticaram e dizia “quem vocês são? Irmão mais novo ou irmão mais velho?” Jesus faz uma critica direta a religião da época, como quem diz “vocês me culpam de estar com os pecadores. Vão continuar agindo como irmão mais velho?” Isso não tem resposta, fica a cada um.

 

Muitos somos assim, damos obediência e queremos benção, queremos livramento, queremos cura.  Não parece que somos muito diferentes dos irmãos. Na verdade, damos ordem de comando ao Espírito Santo, a Deus… A história se repete. É o tipo de pecador que com seu legalismo e moralismo dificulta o retorno por causa da opressão. Deus, nosso pai misericordioso e amoroso sofre com o autoritarismo e a exigência dos próprios filhos. Somos arrogantes que temos o direito de exigir. Imagine o coração do filho mais novo, o arrependimento, a vergonha, a humilhação, o desespero que o fez querer comer com os porcos. Ele abandonou toda a vaidade e se entregou para ser escravo do pai. Essa era a lição implícita: se eu deixar de comer com os pecadores, de receber os publicanos, quem irá salva-los, recebê-los e perdoá-los? Vocês? Não, vocês são como irmãos mais velhos, vocês precisam primeiro se reconciliar com o pai. Vocês dois são pecadores, a diferença é que um reconheceu a sua condição e quer receber o perdão, mas o outro ainda luta contra o Pai. Nós criamos dificuldades desnecessárias para aqueles que estão de coração aberto e querem ser aceitos. Eles querem aprender mais, querem receber os benefícios, mas não tem oportunidade e conhecimento com o mesmo estágio de maturidade, mas precisam de alguém que lhe de um anel, roupas novas e uma festa. Os valores vão vir com a convivência. Muitos de nós preferimos ser guardiões da doutrina e do zelo alem de promotores do bem e do perdão.

 

Jesus convida implicitamente os ouvintes a aceitarem os irmãos mais novos: os não judeus, os publicanos, os marginalizados, as prostitutas, os impuros… Mas este convite esta aberto a nós ainda hoje que agimos ou estamos agindo como irmãos mais velhos, dificultando as coisas para aqueles que não conhecem esse Amor Imaculado. Deus nos convida a amar o próximo da forma com Jesus amou, como o Pai amou o filho rebelde. Que nós sejamos como pontes de ligação, conciliadores e não como irmãos mais velhos.

Deus não faz acepção de pessoas, não importa quão fundo você caia, quão longe você vá, não importa. Deus sempre ira recebe-o de braços abertos se você decidir mudar de vida.

(Unasp-EC, 13.02.2015)

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